quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Nº 8

O descontraído e cativante texto que vocês conferem a seguir, foi publicado na revista “SELEÇÕES” (do Reader’s Digest) em fevereiro de 1966. O show dos Beatles que o texto se refere, aconteceu em 2 de setembro de 1964 no “Convention Hall”, na Philadelphia. Elinor Wikler - a autora nasceu em 4 de julho de 1915 e faleceu em 10 de outubro de 1982. Espero que gostem! Abração em todos!

TODO MUNDO TEM O SEU BEATLE
Por Elinor Wikler

No andar de cima a televisão rugia, e as três adolescentes diante do espelho, Joanie e suas duas melhores amigas, Judy e Melanie, pareciam personagens de uma orgia romana. Judy rolava na cama, gemendo; Melanie estava no chão mordendo um travesseiro; e a minha Joanie, com os nós dos dedos enfiados na boca, parecia Hamlet vendo o fantasma do pai. No vídeo o animador pediu silêncio, e a cameracomeçou a passar pela platéia, pelos rostos de garotas contorcidos em um misto de agonia, êxtase e desespero. Eu ainda tinha subido para dizer-lhes que diminuíssem o volume, mas, parada ali, senti que aqueles ritos, o que quer que fosse, eram particulares e eu não deveria intrometer-me. No dia seguinte, quabdo enxugava os pratos, Joanie virou-se para mim e perguntou:
- Mamãe, não acha que eles são formidáveis?
- Eles quem? – perguntei distraidamente.
- Você sabe muito bem... eles! Respondeu ela da mesma maneira como quando, havia pouco tempo, era incapaz de pronunciar o nome de Papai Noel.
- Você está falando nos Beatles?
- Isso mesmo – respondeu minha filha, sem levantar os olhos.
- Eu compreendo a maioria das coisas – comecei – mas por que os Beatles?
- De que eram feitos os seus sonhos, mamãe? Perguntou Joanie.
Clark Gable subindo aquela escada carregando Scarlett nos braços, pensei. Os olhos de Charles Boyer, a voz... a lentidão com que Humphrey Bogart inalava a fumaça do seu cigarro.
- Eles não estão mais presentes – disse eu, sentindo um certo vazio.
Ela estava mexendo no rádio.
_ Estão sim – disse – nos velhos filmes da TV. Com o cabelo emplastrado, namorando aquelas pequenas com vestidos se miçangas e sem sobrancelhas. Isso hoje é velharia, mamãe.
- Ele me tocou de leve no braço. – Desculpe.
Joanie ligou o rádio. Meus velhos anseios secretos estavam indo todos por água abaixo. Os dela enchiam o ambiente: “I wanna hold your hand, I wanna hold your hand…”
Ela sorriu. Isso não mexe com você, mamãe? Esse é o George.
O jeito dela era bem igual ao meu, nas maravilhosas tardes de sábado, nos cinemas de veludo e ouro de minha adolescência. Que diferença fazia, pensei, se aqueles quatro bonecos de engonço tinham cabelo demais? Compreendi que meu “por que?” a Joanie não encontraria resposta na mentalidade, mas nos tempos – e no coração de uma jovem.
A medida que se passavam os dias e os meses, e as revistas de fãs e discos e retratos dos Beatles se acumulavam, comecei a compreender o que havia naquilo de divertido, a emoção, a aventura...
A aventura começou num dia de março, quando anunciaram que numa certa tarde de quinta-feira, em maio, a partir das 4:30h, seriam postas à venda as entradas para o espetáculo que em setembro Os Beatles iriam dar na cidade.
Lá pelas nove e meia daquela manhã de maio, Joanie e Melanie partiram rumo ao auditório, munidas de almoço em sacos de papel, dois velhos banquinhos dobráveis que tínhamos encontrado no sótão, e cada uma com um rádio transistor (para ouvir os Beatles enquanto esperavam).
O dia inteiro o rádio noticiou que uma multidão crescente se aglomerava diante do auditório e que a polícia estava preparada para agir em caso de tumulto. Finalmente, às cinco horas, a campainha do telefone tocou.
- Joanie! Onde você está?
- Na estação, mamãe. Será que podia vir apanhar-nos? E imagine só! Conseguimos as entradas! Estavam anquilosadas e bataidas, mas satisfeitas. No carro, a história saiu aos arrancos. A gerência, temendo uma arruaça, abrira a bilheteria uma hora mais cedo e vendera tudo em duas horas. Todo mundo estava lá. Todo mundo mesmo! Alguns tinham passado a noite inteira na escada. Cantavam juntos “We Love You Beatles”.
Assim, todo mundo tinha alguma coisa em comum – Ringo e George e Paul e John. Meninas como Joanie e Melanie, que não eram líderes no ginásio, tinham-se integrado na multidão – o grande oceano do mundo. E se conseguissem não se fufocar de emoção até setembro, então, então, estariam respirando o mesmo ar, o mesmíssimo ar que George e Paul e Ringo e John respiravam!
As entradas foram guardadas dentro de um envelope, dentro de outro envelope, na caixa de jóias de Joanie, e a chave posta dentro de um envelope na minha caixa de jóis, e a chave dessa caixa na gaveta trancada da escrivaninha do meu marido. No calendário da cozinha, o dia 2 de setembro foi marcado com estrelinhas. Cada qual tinha seu Beatle. George, sossegado, meditativo era de Joanie. Melanie, intrensa, extrovertida, escolhera Ringo, o mais divertido. E Judy facara com Paul, bonito e bondoso.
Elas tinha adotado uma porção de coloquialismos ingleses, e acompanharam “O Filme” (estrelado pelos Beatles) dos cinemas do centro da cidade até os bairros mais afastados, e tinham conhecido uma garota que tinha uma prima que tinha uma amiga que uma vez tocara em Ringo. E como Ringo pertencia a Melanie, isso colocou-a em uma atmosfera de transe e passou a ser um dos detalhes de um romance em que Ringo nota no teatro uma loura de preto (Melanie, oxigenada) e manda o porteiro entregar-lhe um bilhete: “Meu amor – espere por mim depois.”
Em fins de agosto houve intermináveis discussões a respeito do que vestir, quantos dias antes do espetáculo elas deveriam fazer um xampu nos cabelos, se deviam usar brincos, e nesse caso, se deviam ser compridos.
Em 2 de setembro, levei as três à estação ferroviária, caladas e nervosas. Judy, longe das vistas, passou sombra nos olhos (fingi não notar), e Melanie, que trouxera escondido na bolsa um par de brincos dourados de argola, a todo instante se olhava no espelhinho do carro para verificar se os brincos continuavam pendurados nas suas orelhas. Joanie dera preferência aos tons desmaiados; usava sandálias e pintara de prateado as unhas dos pés. Elas nada diziam a não ser um ocasional: “Oh, Brenda!”, “Oh, Tarlenton!”, “Oh, Mavis!” – esses eram nomes britânicos que elas tinham secretamente adotado. A todo instante verificavam se as entradas estavam na bolsa.
O espetáculo não iria começar antes das 8:30h, mas elas tomaram o trem das três para a cidade. Queriam “ficar um pouco por ali conversando com a turma” esperando a chegada dos Beatles. Ficou combinado que mais tarde me telefonariam caso quisessem que eu fosse apanha-las na estação.
Em casa, a noite pareceu interminável. Fiquei mudando de canal na TV – notícias, boletins meteorológicos, esportes. Passei para um filme de James Stewart e me encolhi no sofá, não muito fascinada pelo antigo glamour. Algo me parecia diferente – ele parecia um velho com aquele cabelo brilhantinado!
Fialmente, a porta bateu e Joanie entrou adejando pelo sala. Atirou-se no sofá e estendeu para o pai o canhoto verde da entrada.
- Guarde isso para mim, papai, na gaveta fechada.
Depois virou-se de bruços, enterrou o rosto nas almofadas e começou a gemer. Meu marido ajoelhou-se junto dela, afagando-le os cabelos.
- Joanie, você está sentindo alguma coisa?
- Sinto-me tão... feliz! É só isso, papai. Eles estavam lá! Na mesma sala. Com a gente! Se eu morresse agora, se eu fosse fulminada neste momento, não me importaria. O dia 2 de setembro veio...- sua voz era solene – e passou!
- Passou mesmo! – disse Fred enxugando-lhe o rosto com seu lenço.
- Vamos, diabinha, agora está na hora da cama.
- Foi com um sonho, como um conto de fadas – disse ela, sentada na cama, de pijama, tomando o seu leite.
- Tão especial... tão alucinante... como queríamos que fosse. Luzes acendendo e apagando. A platéia às escuras. O pano abrindo. Todo mundo em pé em cima das cadeiras e gritando. E todos tão juntos. Parecia... parecia fogos de artifício! E então, mamãe, eles apareceram, de verdade, em carne e osso. E então... – ela abriu a mão que segurava um pedaço de papel de alumínio. – Sabe o que é isto? Abanei a cabeça.
- O bolo! – disse ela com os olhos faiscantes – o bolo que eles comeram na entrevista coletiva estava embrulhado nisto! Foi um policial quem nos deu. Tirou o papel do lixo. Não acha que ele foi um anjo, mamãe?
- Foi sim, meu bem – respondi Agora durma direito. Ela dormiu até a hora do almoço.
- Como se sente agora, Joanie? Perguntei enquanto almoçávamos.
Ela suspirou, espreguiçou-se. E olhou através das cortinas a tarde luminosa.
- Realizada! Respondeu, dando uma ênfase especial à palavra.
- Se estou com pena de ter tudo acabado? – repetiu – Acabado? Nada acaba. Sempre há uma próxima vez.
A próxima vez, pensei eu. São tantas as próximas vezes na idade dela! O que lhe trarão essas próximas vezes, aos 15 anos, aos 16?
- Nada acaba nunca!
Lembro-me de também ter acreditado nisso. Acabar? Os Beatles? Provavelmente logo, para Joanie. E mais tarde voltaria à superfície, um dia na cozinha conversando com a própria filha.
Mas se algum dia, no vasto e crescente oceano do mundo De Joanie, eu encontrasse um ingês cabeludo chamado George, ou Ringo, ou Paul, ou John, eu lhe agradeceria por dar a minha filha o sentimento reconfortante de fazer parte da multidão, e por suavizar, com a cadência de sua música, o sofrimento, o medo, a solidão, o encantamento de estar crescendo. Obrigado, Beatles!

Nº 9

Esta entrevista com Paul McCartney foi publicada na revista Veja de 10 de maio de 1989. Só para lembrar: Paul viria ao Brasil em abril de 1990. Agradecimentos: Thiago Salim. Espero que gostem! Abração!

Estou em plena forma

Aos 46 anos, o ex-Beatle diz que o rock de hoje é ruim, informa que não virou um careta e sustenta que a prevenção da Aids começa em família.

Por Cristina Lopes de Medeiros

Um fã dos Beatles dos anos 60 que se encontrasse hoje com o compositor Paul McCartney na sede de sua empresa, a MPL, no coração de Londres, de onde comanda seus negócios no mundo dos espetáculos, julgaria ter errado de porta. Trabalhando febrilmente numa sala decorada com o mais sóbrio estilo inglês, vestido de forma mais convencional possível – com calça azul marinho e uma impecável camisa branca -, à primeira vista o ex-Beatle tem muito pouco em comum com o jovem qe criou junto com John Lennon a mais famosa banda de rock de todos os tempos, liderou uma revolução de costumes que transformou o mundo e compôs mais de 180 músicas que são sucesso há quase três décadas. Aos 46 anos, pai de quatro filhos – com idades entre 11 e 26 anos -, exibindo no rosto rugas que não se preocupa em disfarçar, Paul McCartney senta-se diariamente em sua escrivaninha, dá ordens nervosas ás suas secretárias e auxiliares e dirige um patrimônio avaliado em 670 milhões de dólares. Nos fins de semana, foge com a família para sua fazenda na Escócia, ou descansa em sua casa nos subúrbios de Londres.
Mesmo levando vida de executivo, não é difícil identificar em McCartney o ídolo da música. Simpático, descontraído e extremamente comunicativa, ele ainda exibe o mesmo carisma e a exuberância do tempo dos Beatles e parece em plena forma. “Paul McCartney pode ter envelhecido mas não ficou careta”, informa. Na semana passada, às vésperas de lançar na Inglaterra seu novo LP, Flowers in the Dirt – que inclui uma música em homenagem ao sindicalista brasileiro Chico Mendes, assassinado há 5 meses -, ele recebeu VEJA em seu escritório e falou de rock, ecologia, vida familiar e – como não poderia deixar de ser – dos Beatles e de John Lennon.

Veja – O que o levou a gravar uma música em homenagem ao líder sindicalista Chico Mendes?
McCartney – Ouvi falar nele pela primeira vez depois que foi assassinado. Os telejornais ingleses deram grande destaque à notícia e, a BBC fez um programa especial sobre ele e sua campanha pela Floresta Amazônica. O trabalho de Chico Mendes me comoveu. Sua preocupação com a preservação do meio ambiente e o bem-estar social, e o fato de ter sido assassinado justamente por isso, o transformaram para mim num personagem especial. Eu já havia composto a canção How Many Will Have to Die, que incluí nesse novo álbum, e decidi dedicá-la a ele.

Veja – Como vê a atuação de Sting, em favor da causa ecológica?
McCartney – Eu certamente não adotaria um índio, como ele fez com Raoni, mas acho que no seu caso o gesto é sincero e não tem nada de demagógico. É claro que sempre existe o perigo de interpretá-lo como um golpe autopromocional e suscitar criticas violentas – mas, a história é a mesma desde o tempo de Jesus Cristo. Qualquer um que estiver diposto a agir pelo bem da humanidade corre o mesmo risco. Bob Gerdolf, por exemplo, arruinou sua carreira depois do Live Aid – a série de espetáculos em favor da Etiópia: a causa o absorveu a tal ponto que ele nunca mais foi capaz de fazer um disco.

Veja – Não cabe ao Brasil preservar a Amazônia em vez de roqueiros ficarem fazendo isso?
McCartney – Não se pode responsabilizar o Brasil pela destruição da reserva de oxigênio do mundo. Nós mesmos, os ingleses, somos responsáveis por grande parte da destruição, junto com os outros países industrializados do norte da Europa. Quem provocou a chuva ácida, por exemplo? Compreendo que o Brasil agora explore suas florestas e concordo com seu direito de querer torná-las rentáveis. Talvez nós, países industrializados do Ocidente, possamos contribuir para que isso não signifique a extinção da fauna e da flora, subsidiando a preservação. Podemos fazer isso, pagando um preço elevado pela borracha e desestimulando a produção de carne ou cereais. Se nós quisermos preservar a floresta, a única saída é pagar por isso. Não se pode simplesmente dizer: “Ei, parem com isso, vocês vão estragar o ar que mundo respira”.

Veja – Nos tempos dos Beatles, você gostava de festas e badalações e hoje deixou de fumar, bebe pouco e aprecia sobretudo a vida doméstica. Como foi a mudança?
McCartney – Eu gostaria de ser uma eterna criança, mas, aos 46 anos e quatro filhos, você acaba sendo obrigado a ter uma certa maturidade. É claro que não virei um velho careta: estou em plena forma. Ainda adoro uísque escocês também, mas levo uma vida plenamente saudável: comida vegetariana, ar puro, boas horas de sono e nenhum trabalho nos fins de semana
.

Veja – Você acha que os jovens dos anos 80 são mais conservadores que os dos anos 60?McCartney – Não são mais conservadores, mas mais conscientes e, de uma certa forma, mais bem preparados. Na minha época, não se falava em sexo em casa, a gente descobria tudo sozinho. Havia muitos tabus, muita repressão. É natural, então, que a juventude dos anos 60 quisesse se liberar das convenções e romper todas as amarras. Hoje isso não é mais necessário, essas questões já foram discutidas e esclarecidas. Não existe mais a necessidade de revolucionar os costumes de uma forma drástica, como foi feita naquela época. Mas isso não significa conservadorismo. Essa nova mentalidade, mais aberta, mais condescendente, esse amadurecimento é o grande legado da revolução que nós lideramos.

Veja – Alguns conservadores apontam a Aids como a principal conseqüência dessa revolução. Você concorda com isso?
McCartney – A Aids é um mal que não saiu da cabeça de ninguém. Ela existe como uma nova peste e eu não acho que se possa culpar alguém por isso. Nós temos é que aprender a conviver com essa ameaça e fazer o possível para reduzi-la ao máximo. Mas naturalmente ela contribui para uma nova postura em relação ao sexo. É preciso ser muito mais cauteloso hoje em da e isso certamente reduz a liberdade sexual.

Veja – Que conselhos você dá a seus filhos a respeito da Aids?
McCartney – Nós discutimos o problema claramente. Eu e minha mulher, Linda, procuramos conscientizá-los de que hoje você precisa conhecer bem seu parceiro sexual para ter um risco menor de contágio. Sabemos que o relacionamento sexual entre os jovens é perfeitamente natural e por isso aconselhamos nossos filhos a tomarem certas precauções, como o uso de preservativos, e a considerarem o sexo como parte de um relacionamento afetivo.

Veja – Você já foi preso por porte de maconha. Como vê as drogas hoje em dia?
McCartney – Eu não sou um pregador da maconha, mas acho que existem muitas outras drogas mais nocivas que ela. Heroína mata, crack mata, cacaína mata, remédios matam. É assim que eu vejo as drogas.

Veja – Você não toma mais drogas?
McCartney – Olhe, eu não diria numa entrevista que tomo drogas. A privacidade neste caso é fundamental.

Veja – Você acha que os artistas têm um papel a cumprir no sentido de conscientizar as pessoas no combate às drogas e à Aids?
McCartney - Todo o artista tem um papel a cumprir, seja ele no sentido de combater aquilo que critica, seja no de despertar a consciência das pessoas. Mas não lhe cabe a responsabilidade de procurar “fazer cabeças”. Claro que um ídolo é sempre um modelo e o que ele faz, a maneira como se comporta e pensa é imitada por milhares de fãs. Na época dos Beatles, quando me perguntavam se eu não me sentia responsável pelos jovens que nos admiravam e copiavam, achava que não, que eles eram livres para fazer o que quisessem e que isso era problema deles. Hoje, como pai, eu já vejo as coisas de uma forma diferente. Os artistas têm um poder incalculável de influência sobre os jovens. Se eles puderem usar essa influência para divulgar boas causas, tanto melhor, mas não se pode atribuir-lhes o papel de gurus.

Veja – Quem é seu público hoje em dia: os jovens ou os antigos fãs dos Beatles que têm a sua idade?
McCartney – Os Beatles ainda são sucesso atualmente entre todas as gerações. É verdade que que o rock atual vive hoje uma crise de criatividade e isso contribui para reavivar o trabalho dos Beatles, mas o fato é que éramos realmente muito bons e nossas músicas não envelheceram. O principal problema do rock atual é que ele envelhece rapidamente . A maioria das composições é descartável. É claro que há trabalhos de excelente qualidade, mas a grande parte é feita numa base puramente comercial, o avanço das técnicas de vídeo e som contribuiu em muito para isso.

Veja – Porque os Beatles são sucesso até hoje, enquanto tantos novos artistas se alternam no trono da música pop? O que os Beatles tinham que Madonna e Michael Jackson não tem?McCartney – Falta-lhes profundidade. Falta-lhes qualidade musical. Parece pretensioso, mas é certo que as músicas de Lennon e McCartney eram muito melhores e, do ponto de vista musical, até hoje são modernas, intrigantes, ousadas, Michael Jackson, por exemplo, é um bom cantor, mas é sobretudo um show-man. É um grande bailarino, mas não toca nenhum instrumento. A diferença entre os Beatles e a maior parte dos novos ídolos do rock começa com a formação musical e a habilidade de extrair músicas dos instrumentos. Eu compus com Michael Jackson e compus com John Lennon e posso dizer que John era realmente um gênio musical. Ele podia não cantar como Michael Jackson e certamente não dançava como ele – a menos que estivesse bêbado, mas isso é outra história -, mas era um homem muito profundo e um músico excepcionalmente habilidoso.

Veja – Como era trabalhar com John Lennon?
McCartney – Era uma competição muito fácil e muito produtiva. Ele foi sem dúvida o melhor parceiro musical que já tive e um grande amigo. Tínhamos um perfeito entrosamento e mesmo nos momentos de maior tensão, pouco antes da dissolução do grupo, conseguimos manter a mesma sintonia. É claro que ele era uma pessoa difícil – autoritário, intransigente, impaciente, mas era fácil trabalhar com ele. E muito gratificante, porque cada um dava o melhor de si e conseguimos criar boas coisas, ás vezes em um mínimo de tempo.

Veja – É verdade que seu relacionamento com John Lennon piorou muito nas vésperas da morte dele?
McCartney – Sempre houve um certo ressentimento depois da dissolução do grupo, e os problemas com a nossa empresa, a Apple, só contribuíram para agravá-los. Mas no fundo continuávamos amigos, a nos querer bem e a nos respeitar. Pouco antes dele morrer, tivemos uma conversa pelo telefone sobre nossas famílias e nosso trabalho. Um papo descontraído, de dois velhos amigos, e foi uma das raras vezes em que não desligamos batendo o telefone um na cara do outro.

Veja – Em 1985, Yoko Ono, George Harrison e Ringo Starr moveram um processo contra você, acusando-o de abocanhar uma parcela desigual dos direitos autorais dos Beatles. Em que deu essa briga?
McCartney – Os Beatles nunca detiveram o controle sobre os direitos autorais de suas composições. Quando começamos, há mais de 25 anos, nosso contrato não nos dava nenhum poder, apenas recebíamos o dinheiro que nos era enviado pela firma Dick James, a primeira a deter esse controle. Depois ele foi vendido quando nós estávamos na Índia, sem que sequer nos comunicassem . Eles trocaram sucessivamente de mãos até chegar as de Michael Jackson, que comprou o controle sobre nossas canções há dois anos. O nosso grande problema desde a dissolução do grupo foi a gravadora Apple, que era nossa e que até hoje nos dá dor de cabeça. Nunca se conseguiu chegar a um acordo sobre partilha, e a situação está até agora nas mãos dos advogados. Todos os meses analisamos novas possibilidades para resolver a questão, mas há sempre um de nós que não está de acordo, e não se decide nada.

Veja – Isso contribuiu para deteriorar as relações entre os ex-Beatles?
McCartney – Certamente. Nós nunca vamos voltar a ser realmente amigos enquanto essa questão estiver pendente. É como se houvesse sempre uma tensão no ar. É como um divórcio – arrastado e desgastante. Quando essa situação finalmente se resolver, meus planos é compor com George Harison – nós nunca escrevemos uma música juntos. Ele mesmo está animado com a idéia, e é possível até que Ringo e nós façamos algo juntos quando nos livrarmos da Apple.

Veja – Seria a volta dos Beatles, embora sem Lennon?
McCartney – Não voltaríamos como um grupo, mas como velhos parceiros. Por que não?

Veja – Como é hoje sua relação com Yoko Ono?
McCartney – Nunca foi das melhores, mas é civilizada. Nos falamos de tempos em tempos por telefone e nosso contato é pequeno. Há alguns anos, eu quis comprar os direitos autorais das composições Lennon e McCartney, mas não queria comprá-los sozinho. O ideal seria dividi-los com John, mas como ele estava morto, propus fazê-lo com Yoko. A coisa simplesmente não funcionou e desisti da idéia. Hoje nos limitamos às conversas triviais.

Veja – Depois do assassinato de Lennon você intensificou sua segurança pessoal e da sua família?
McCartney – Quando estou exposto como ídolo, em shows e turnês, tenho sempre guarda-costas. Também evito circular muito em lugares onde haja multidões. Mas fora isso levamos uma vida perfeitamente normal e evitamos transformar a questão de nossa segurança pessoal numa paranóia.

Veja – Em 1986 sua fortuna foi estimada em 400 milhões de libras (700 milhões de cruzados novos). Ela cresceu desde então?
McCartney – Não posso me queixar de ter perdido dinheiro nos últimos tempos.

Veja – Você é um dos poucos megaastros do rock que não se exilaram da Inglaterra por causa do elevado imposto de renda cobrado no país. Por quê?
McCartney – Porque gosto de morar na Inglaterra, de trabalhar aqui. Então, se tenho que pagar impostos, eu pago. E olha que não é pouco.
Veja – Por que você escolheu a União Soviética para lançar seu LP do ano passado, Back in U.S.S.R.?
McCartney – Eu primeiro fiz um disco e estava pensando em como divulgá-lo. Então tive a idéia de fazer algo completamente inédito: lançá-lo primeiro na União Soviética, para só então lançá-lo no Ocidente. Assim, pela primeira vez, os russos teriam a primazia numa área predominantemente ocidental.

Veja – Então tudo não passou de um golpe publicitário?
Mccartney – Bem, inicialmente foi isso mesmo, mas a idéia pareceu-me válida porque seria também uma forma de agir em favor do meu propósito de derrubar fronteiras e estreitar laços. Tenho certo medo de levantar uma bandeira, a exemplo de Sting, e parecer ingênuo ou pretensioso, mas tenho um causa geral que é a paz, a cooperação entre a União Soviética e os Estados Unidos.

Veja – Por que até então você não se empenhara nessa causa?
McCartney – Antes era simplesmente impossível contatar as gravadoras soviéticas, por exemplo. Mas, mesmo na época dos Beatles, nós já contribuímos para mudar a mentalidade dos jovens russos. Não acho exagero afirmar que os Beatles tiveram grande influência sobre eles. Na época em que lancei o disco, há cerca de um ano, dei uma entrevista em Londres para uma revista soviética e perguntei aos jornalistas, dois tipos tipicamente agressivos da KGB: “O que vocês faziam na época dos Beatles?” Eles responderam: “Nós tocávamos suas músicas na guitarra e adorávamos vocês”. Foi uma sensação indescritível.

Veja – Você pretende fazer shows na União Soviética este ano?
McCartney – Não este ano, mas no próximo. Estamos organizando uma grande turnê internacional.

Veja – Ela inclui o Brasil?
McCartney – Inclui a América do Sul certamente, mas ainda não sei se inclui o Brasil. Eu gostaria muito. Já planejamos isso várias vezes, mas nunca deu certo. É um páis que me atrai muito, principalmente por causa da música.

Veja – O que você conhece da música brasileira?
McCartney – Não conheço nomes, mas conheço o som, e o que mais me atrai é a percursão, a melhor do mundo.

FIM

Nº 10

Ringo Starr e Barbara Bach casaram-se em 27 de abril de 1981. Cinco meses depois do acontecido no Dakota. Esta matéria saiu na revista Manchete em maio.

Só faltou John Lennon - O encontro dos BEATLES no casamento de RINGO

Ringo e Bárbara se conheceram durante as filmagens de O Homem da Caverna. Muitos escreveram que o romance era só publicidade. Não era...

Ao posar para a foto oficial, eles sorriam como quaisquer noivos tradicionais – embora se chamassem Ringo Starr, 40 anos, e Bárbara Bach, 34, tendo a seu redor centenas de fotógrafos, fãs ou curiosos. Segundo os boatos, Paul McCartney e George Harrison, ambos com 38 anos, compareceriam. E, quando os dois se materializaram na saída da igreja, o delírio foi inevitável. Depois, usando garrafas de champanha (devidamente esvaziadas) como bateria e com pequena ajuda de seus amigos, informa o TIME, montou uma improvisada sessão de jazz. A reunião ocorreu após a gravação de All Those Years Ago, um tributo musical a John Lennon composto por Harrison e que faz parte do seu próximo LP Somewhere in England. A faixa foi gravada com Harrison na guitarra, Starr na bateria, McCartney e a mulher Linda na harmonia. Foi a primeira canção em que os ex-Beatles colaboraram nos últimos dez anos. Depois de tudo, Paul deixou escapar o comentário: “É ótimo estarmos juntos novamente.” Os fãs dos 4 de Liverpool dizem amém. Lamentável, apenas, que John não estivesse lá compartilhar de tanta alegria.
Wilson Cunha

George saiu apressado, com sua nova mulher Olívia Arias.

Paul McCartney fez uma saída triunfal.

Nº 11

Os mistérios da vida comum de oito pessoas
Matéria publicada na revista Veja de 19 de março de 1969
. É impressionante observar como os erros podem se repetir durante anos. Para "eles" Lnda era herdeira da Kodak. Paul morreu em 66. Abração!

Não há nada de extraordinário no casamento de um “Beatle” --- a não se que a mulher, geralmente, se casa um pouco com mais três homens além do marido. “Eles são uma firma e resolvem tudo em conjunto: quando um quer casar, os outros podem permitir ou não”, comentou Jane Asher, namorada e noiva de Paul McCartney durante cinco anos, ao terminar o namoro cinco meses atrás.
Mas, na semana passada, diante de uma pequena multidão de fãs que o acolheu com gritos de amor e exclamações de tristeza, o último “beatle” solteiro, Paul McCartney, casou-se com a milionária americana Linda Eastman, de 27 anos, divorciada, mãe de uma menina de seis anos, Heather, e uma das herdeiras da firma Eastman-Kodak. Enquanto Paul casava, John Lennon estava trancado em casa com sua segunda e estranha mulher, Yoko Ono, Ringo Star ia a Liverpool visitar os parentes e George Harrison fumava maconha em casa com a mulher, Pattie, e acabavam os dois presos.
Os três companheiros de Paul vetavam o nome de Linda, como haviam feito com Jane? Entre esta e outras dúvidas, ela terá que aprender a fazer parte de uma família de oito pessoas muito parecidas entre si, mas na qual nem tudo é cor-de-rosa.

A vida a oito - As mulheres dos Beatles, nos últimos anos, foram invejadas, ameaçadas, vaiadas e finalmente agredidas (Pattie e Cynthia, a primeira mulher de John Lennon, desistiram de assistir às apresentações públicas dos maridos por causa da violência das fãs).
Jane e Cynthia viveram um drama parecido: foram as únicas que protestaram contra a predominância dos interesses do conjunto na vida conjugal --- e acabaram abandonadas. John Lennon foi o primeiro a casar, em 1962, e no ano passado, quando se divorciou, disse que só casara com Cynthia porque ela estava grávida. A biografia oficial dos Beatles reserva para Cynthia algumas insinuações de mesquinharia com dinheiro, projetos nunca postos em prática (Cynthia não fazia absolutamente nada), além de implicar com o barulho que John fazia ao comer. Jane Asher tinha dezessete anos quando conheceu Paul, em 1963, e sempre fez questão de ter seu próprio emprego de atriz. Não gostava de sair com todos os Beatles porque “eles ficavam conversando entre si e fazendo música, deixando as mulheres sem assunto”.

O geral e o particular - A vida conjugal dos Beatles foi muito parecida durante certo tempo. Os quatro moram em grandes casarões fora de Londres, visitam-se continuamente e suas mulheres têm origens e problemas semelhantes: John conhecia Cynthia antes de ser famoso, Jane fora colega de escola de Paul, Ringo namorava Maureen Cox desde Liverpool, cidade natal de ambos, e George saía com Pattie de 1960, antes de aparecer o conjunto. Numa família assim os problemas também eram muito parecidos: enquanto Pattie passava horas “imaginando a melhor arrumação dos móveis”, Maureen especializava-se em preparar pratos para Ringo (ele não admite que a mulher e os dois filhos comam antes dele e tem uma cadeira que só o dono da casa usa). Esta harmonia a oito sofreu seus primeiros golpes no ano passado, quando John conheceu Yoko Ono (“Ela é uma mente superior, fantástica”) e Paul brigou com Jane, começando a sair com Linda.

Yoko, de 34 anos, pintora, escultora, escritora e cineasta (é dela o célebre curta-metragem “Number 4”, que mostra 365 nádegas diferentes e foi elogiado pela crítica inglesa) é agora a personalidade mais forte no grupo feminino dos Beatles e tem sobre John uma influência que nenhuma das outras mulheres conseguiu exercer. Linda, mulher elegante e sofisticada, fotógrafa profissional, jamais deu qualquer opinião sobre os Beatles e sobre o tipo de vida que eles levam. Ela pode ter calculado que o tempo trabalha a favor de sua vida conjugal: desde que John e Yoko começaram a se afastar dos outros “beatles”, George já sugeriu várias vezes que cada um deve tentar a sorte sozinho e o próprio Paul preferia ultimamente passear com sua cadela Martha a viajar com o grupo.

Nº 12

Matéria publicada na revista Veja de 21 de agosto de 1985.

DISCOS - TACADA POP
Michael Jackson compra canções dos Beatles

O cantor Michael Jackson, uma das mais cintilantes estrelas da música pop americana, derrubou de um golpe o ex-beatle Paul McCartney e Yoko Ono, viúva de John Lennon. Na semana passada, Jackson venceu uma concorrência da qual participaram Paul e Yoko e comprou por 45 milhões de dólares a editora musical inglesa ATV Music, ligada à celebre Northern Songs, dona dos direitos de reprodução e execução do melhor bocado da produção dos Beatles. Como proprietário da editora, Michael Jackson passa a ter os direitos sobre 270 canções compostas pela dupla Lennon e McCartney de 1963 a 1970, ano em que o mais popular e inovador conjunto de rock do mundo foi dissolvido. Assim, cada vez que clássicos com Hey Jude, Michelle, Yesterday e Let It Be forem gravados, tocados em público ou executados em rádios, Michael Jackson receberá polpudas comissões - uma mina de ouro que Paul McCartney e Yoko Ono vinham tentando recuperar.
Aos vinte e seis anos de idade, Michael Jackson, o ex-menino prodígio da música negra, converte-se num misto de artista e homem de negócios. Cacife para bancar sua nova carreira é o que não lhe falta. Apenas seu útimo disco, o premiadíssimo Thriller, do qual foram vendidas 35 milhões de cópias, lhe rendeu 50 milhões de dólares - 5 milhões a mais, do que desembolsou para a compra da editora musical. O investimento aumentará consideralvelmente seu cacife. Especialistas do mercado de discos calculam que os direitos sobre as músicas dos Beatles renderão a Jackson 7 milhões de dólares por ano. Quanto a sua própria produção, Jackson já tomou os devidos cuidados. As reproduções dos seus discos são controladas por uma editora de sua propriedade - a Mijack Music. Destinam-se aos cofres da Mijack os royalties pelas gravações, versões e execuções das músicas de MJ. O cantor passa a ser agora provavelmente o maior publisher de música do mundo. No Brasil, a gravadora dos Beatles é a Odeon, que criou um braço editorial para representar a Northern Songs no contole da reproduções das obres do conjunto - da inclusão das músicas em novas gravações ao uso das canções em trilhas sonoras de novelas ou filmes. Foi a Odeon que, recentemente, aprovou a entrada no último disco de Roberto Carlos de uma versão da música And I Love Her, um velho sucesso dos Beatles. Apenas por conta desta gravação, a Odeon já remeteu 140 milhões de cruzeiros à detentora dos direitos dos Beatles. Cifras como esta passarão, daqui por diante, a engordar o patrimônio de Michael Jackson.

Nº 13

Forever. E sem chiados.
Os primeiros discos dos Beatles a laser estão chegando

Matéria publicada na revista "Afinal" de 10 fevereiro de 1987

Please Please Me, With the Beatles, A Hard Day's Night, Beatles for Sale: os quatro primeiros álbuns Beatles a laser.

Dezessete anos depois da dissolução do conjunto, os Beatles chegam à era do laser. No próprio dia 26 começam a ser distribuídos às lojas americanas os primeiros discos compact discs – o disco digital de reprodução através de raio laser – do grupo, e já quem se tenha decidido a chamar a polícia, para evitar tumulto. Em um prazo de pouquíssimos dias, já haverá cds dos Beatles à venda nas grandes importadoras de São Paulo e Rio de Janeiro.
A EMI Music WorldWide, a gravadora dos Beatles, promete lançar, até o final do ano, todo os antigos LPs do conjunto na forma de cd. Os brasileiros felizardos que têm toca-discos a laser, e podem pagar 700 cruzados por CD (como o compact disc é conhecido em todo o mundo), não terão grandes surpresas – a não ser, é claro a felicidade de ouvir para sempre sem qualquer chiado, o som do conjunto de múisca mais famoso da História.
Os consumidores americanos, no entanto, vão encontrar nas lojas discos de que jamais ouviram falar. É que a gravadora decidiu lançar os discos a laser dos Beatles seguindo rigorosamente a discografia oficial do conjunto de acordo com os lançamentos originais ingleses. E nos Estados Unidos, os lançamentos, até 1966, foram inteiramente diferentes daqueles do país de origem de John, Paul, Ringo, George. Fazia-se uma imensa salada. Entre 1962 e 1966, os Beatles gravaram 102 músicas, que na Inglaterra apareceram em oito LPs, 12 compactos duplos e 13 simples; nos Estados Unidos, essas 102 músicas viraram 11 LPs, quatro compactos duplos e 20 simples. Só depois de Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band, de 1967, os LPs do conjunto passaram a ser exatamente iguais em todo o mundo. No Brasil, a EMI-Odeon passou, em meados da década de 70, a relançar os LPs seguindo a forma original inglesa.
Os discos serão lançados em ordem cronológica. No dia 26 chegam às lojas os CDs dos quatro primeiros álbuns – Please Please Me e With The Beatles (1963), A Hard Day’s Night e Beatles fo Sale (1964). Até o final do ano, deverá ter saído da fábrica aberta há pouco pela EMI em Jacksonville, Illinois, a discografia completa, de 13 álbuns.
“No mais tardar no dia 1º de março, já teremos os compacts discs dos Beatles em nossas lojas”, garante orgulhoso, Odair Borges, da rede paulistana Museu do Disco. “Já encomendamos 1.000 cópias de cada”. E revela que seu distribuidor em Miami, decidiu chamar à polícia no dia em que receber a primeira remessa. “Vai ser uma loucura”.

Nº 14

Recordar é viver! Essa, foi simplesmente sensacional! Foi publicada na "Ilustrada" da Folha de São Paulo no dia 6 de novembro de 1985, uma quarta-feira. Lembro como se tivesse sido ontém. Deu um bafafá danado! Os fofoqueiros de plantão, na época, disseram até que dias depois das "declarações" de McCartney, ele e Julian Lennon estavam numa mesma festa e que Julian tentou agredi-lo. Foi impedido pelos seguranças, claro. Espero que gostem! Abração!

Paul chama Jonh de “porco manipulador”
Das Agências Internacionais

O ex-beatle Paul McCartney, 43, declarou, em Londres, à revista feminina “Woman”, que seu ex-companheiro de conjunto e parceiro na grande maioria das canções dos Beatles, John Lennon, assassinado, aos 40 anos, no dia 8 de dezembro de 1980 por um fanático, era “um porco manipulador”. Segundo McCartney, Lennon “não foi nenhuma espécie de santo, ele era na verdade um depreciador”.
McCartney disse também que o ex-amigo se havia tornado ciumento e o aconselhara certa vez a não dar em cima de sua mulher, Yoko Ono, 52. Esta, ao inteirar-se, em Nova York, do teor da entrevista, declarou-se “atordoada” e acrescentou que reservaria seus comentários para quando tivesse lido o artigo.
Luther Lennon
”Era um porco manipulador, o quee ninguém jamais imaginou. Agora, depois de morto, tornou-se Martin Luther Lennon”, disse McCartney, aludindo ao líder negro norte-americano Martin Luther King, assassinado em 1968 por um racista. “John sempre foi apresentado como o bom moço dos Beatles, e eu como o bastardo que destruiu o conjunto. As coisas não se passaram assim. Ninguém nunca se deu conta do hipócrita que foi Lennon. Fiquei sabendo que ele declarou ter participado da composição da música “Eleanor Rigby” (um dos seus sucessos do grupo). Sim, em mais ou menos meio verso”, disse o ex-beatle na entrevista.
Paul McCartney sempre negou ter sido o responsável pela separação do conjunto em 1970. Quanto às declarações que deu ontem a revista "Woman", ele mesmo as justificou na entrevista, alegando que não podia esconder a raiva que sentia por tudo que Lennon disse sobre ele.
"Muzak"
"Ninguém se lembra de quanto John me magoou ao dizer que minha música era "muzak" (música ambiental de elevadores, escritórios e lugares públicos), disse McCartney, referindo-se à música que John Lennon lhe dedicou em seu LP solo "Imagine", "How do You Sleep at Night?". Ali ele afirma que o som de McCartney é "muzak" para os seus ouvidos, além de dizer que a única coisa que o ex-parceiro fez foi "yesterday" (brincadeira com o duplo sentido da palavra, que em inglês quer dizer ontem e que é também o título de outro sucesso do grupo).
John Winston Lennon e James Paul McCartney conheceram-se em Liverpool no dia 15 de janeiro de 1956 e o primeiro, então com 15 anos, convidou o outro, com 13, a tocar em seu conjunto, o Quarry Men. O guitarrista George Harrinson e um baterista, Pete Best, se juntarão a eles dois anos depois. O conjunto mudará o nome para Moondogs e, em seguida, Silver Beatles. Em 1962, sai o Pete Best e entra Ringo Starr (pseudônimo de Richard Starkey). Já com o nome de Beatles gravam neste mesmo ano seu primeiro compacto simples. Eles tornaram-se o grupo de rock mais famoso de todos os tempos, com composições como "Michelle", "Help", "Yesterday" e outras, e a dissolução do grupo até hoje não foi claramente explicada. Depois da separação, John continuou sua carreira com a mulher Yoko Ono; e Paul com a mulher Linda Eastman, formou a banda Wings, que o acompanha em seus discos.

A perfeição conflitiva
André Singer
Analista político da Folha

Paul McCartney resolveu falar. Depois de anos de silêncio, o beatle bem comportado decidiu expor as mágoas acumuladas ao longo de duas décadas de competição com o amigo e parceiro John Lennon. Provavelmente McCartney está certo quando menciona a paranóia, as tentativas de ofuscamento e irascibilidade de Lennon. Lennon se considerava o líder dos Beatles. Em geral, grupos têm líderes. Único problema: McCartney também se sentia predestinado à liderança e ao brilho normalmente reservado a apenas uma figura de cada grupo de rock.
Foi o encontro conflitivo de Lennon e McCartney que produziu uma obra artística forte e duradoura, apesar de pop e consumível, e em parte por isso mesmo. Todas as caractrerísticas de Lennon pertencem também a McCartney: egocentrismo, competitividade acentuada, autoritarismo, impaciência com os companheiros de trabalho etc. Mas nada disso teria maior significado se os dois não fossem possuidores de sensibilidades e talentos complementares.
Lennon agressivo, desmistificador, irônico e amargo. McCartney romântico, lírico, doce superficial. Sozinhos fizeram essas coisas boas. Juntos, excepcionais! A maioria das composições foi individual, mas o arranjo, a execução, a soma final dos estilos nas faixas intercaladas dos discos, os pequenos e grandes toques sugeridos em cada canção fizeram os Beatles.
Os Beatles trafegaram por todas as águas e sua força foi fazer a paródia de todos os estilos. Para isso, Lennon e McCartney precisavam ser o par de oposições que foram. Conflitos e mágoas foram o produto guardado até agora nos bastidores por McCartney, mas já tinham sido expostos por Lennon em diversas entrevistas e canções. São importantes para a história deles. Para nós, “gossip”.

O pólo masculino e feminino
Martinas Suzuki Jr.
Editor da Ilustrada

Assim como na tragédia grega Apolo e Dionísio eram princípios que se opunham mas que se completavam, e só nesta tensão realizava à integra da Arte, os garotos John e Paul formaram o arco teso de arquétipos longamente sedimentados na imagem da criação artística. John Lennon: o dono do verbo, o guerreiro, o herói, portanto princípio masculino: Paul McCartney: a música, o timbre agudo, a formalidade delicada, portanto o princípio feminino.
Ulisses e Sereia, ânimo e anima: o destino trágico de John foi o corolário da condição mítica do homem épico; o destino de burguês bem-sucedido de Paul é harmônico com a ociosidade do mundo que vive em função das musas. John reclamava de seu parceiro, na perspectiva máscula do discurso da transformação; Paul, agora solta o verbo feminino como uma comadre ressentida. O casal rompeu-se para sempre e nós, que já vivemos uma década mais inocente do rock “n” roll, ficamos sem entender direito a estranha separação destes amantes que, pensávamos, eram os aliciadores das paixões, os que nos ensinaram o fragmento amoroso de pegar na mão e a coragem de dizer sim, sim, sim.

Nº 15

Excelente artigo publicado na revista "Afinal" de 15 de março de 1988

É só rock “n” roll – e que maravilha!
Sérgio Vaz

Nesta era de fibra de vidro, continuo procurando por uma pérola, escreveu Bob Dylan em Dirge, de 1974. Seu amigo George Harrison poderia perfeitamente assinar embaixo a mesma declaração de princípios. Seu novo LP, Cloud Nine, que a WEA lançou no final de fevereiro no mercado brasileiro, é um disco extraordinário por diversos motivos – mas, principalmente, porque ele dispensou os aparatos modernosos, virou as costas para tudo que se inventou de tecnopop, despojou-se até (ainda bem) do seu fanatismo místico, e foi direto ao centro da questão, o princípio elementar, a pérola: o velho e bom rock”n”roll. Com direito, é claro, a uma ou outra balada. Tudo limpo, límpido, transparente, feito com competência, garra, paixão, alguma angústia, alguns piques de alegria, maturidade. Nada de massa sonora. Não há massas sonoras – essa praga dos anos 70 que em muitos casos insiste em sobreviver até este final de anos 80 - , nem efeitos de alquimias eletrônicas. “No meu tempo”, disse ele, “usávamos guitarras reais, teclados reais, baterias reais e pessoas reais.”
Deu certo – e não deu certo apenas porque George conseguiu, com este Cloud Nine, criar o melhor trabalho de seus 17 anos pós-Beatles, ao lado de All Things Must Pass, o primeiro, o álbum triplo de 1970. Deu certo também porque, como nunca tinha acontecido nestes anos todos, fez um tremendo sucesso. Em meados de um mês o LP – lançado na Inglaterra e nos EUA em outubro do ano passado – vendeu um milão de cópias e deu a ele seu primeiro disco de platina. (Depois da separação dos Beatles, apenas Paul McCartney tinha conseguido isso.) O que prova que, afinal de contas, havia muito mais gente do que se suspeitava interessada em pérolas e não em fibra de vidro.
É interessante que George tenha conseguido tudo isso – um trabalho belíssimo, marcante, a unanimidade da crítica americana e européia, a consagração popular – quando já ninguém falava dele, depois de cinco anos de absoluto silêncio (Gone Troppo, seu LP anterior, foi malhadíssimo, não vendeu nada e não tocou no rádio; “pra que fazer música se não vai tocar?”, ele se perguntou, durante esse intervalo de cinco anos). Parece mais uma peça que se ajusta perfeitamente nesse quadro estranho que é sua carreira. Durante oito anos como Beatle (e cada dia da época em que ele era um Beatle equivalia a dez anos, como ele diz agora), ele foi massacrado pelo poder e pelo talento transbordante da dupla central; para cada 13 composições de Lennon & McCartney, ele conseguia gravar uma sua. No álbum Branco, de 1968, por exemplo, conseguiu o feito inédito de gravar quatro músicas de sua autoria – só que contra 26 de Lennon & McCartney. Talvez por isso, pelo fato de ter tido criatividade represada, ele tenha partido, ainda em 1970, o ano da dissolução do conjunto, para o exagero do álbum triplo – lançando poucos meses depois, em 1971, outro álbum triplo, The Concert for Bangladesh, ainda que dividindo a cena com amigos como Bob Dylan. Depois desse começo copioso e competente, no entanto, o compsitor entrou meio em recesso, lançando apenas duas ou três boas canções em cada um dos LPs que se seguiram, até Gone Troppo, 0 11º da carreira solo. Eram, na maioria, trabalhos pouco criativos, sem brilho, e encharcados de misticismo.
Os cinco anos de silêncio – longe do carrossel, como diria John Lennon – fizeram um tremendo bem a George Harrison. (Coincidente ou emblematicamente, John Lennon também teve exatos cinco anos de silêncio entre Rock”n”Roll e seu retorno no esplendor da maturidade em Double Fantasy, de 1980.) Depois de cuidar de plantas em sua mansão e andar perdendo dinheiro produzindo filmes, George resolveu reunir alguns velhos amigos no estúdio que tem em sua casa: Ringo Starr na bateria, Eric Clapton na guitarra (“nós nos entendemos bem, até dividimos a mesma mulher”), Elton John no piano, Gary Wright (ex-Spooky Tooth) nos teclados e Jeff Lynne (ex-ELO) na guitarra, baixo, produção e co-autoria de várias músicas. O resultado foi um dos grandes discos da história do rock. Bob Dylan – citado no verso “it’s all over now, baby blue”, na deliciosa When We Was Fab – seguramente concorda. John Lennon – homenageado na mesma música com citações de seu I Am the Walrus – seguramente concordaria.

GEORGE HARRISON - THIS IS LOVE

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Nº 16

Postagem publicada originalmente rm 16 de janeiro de 2010Caríssimos amigos: Essa é do fundo do baú! Com absoluta exclusividade, nosso blog preferido publica agora uma entrevista raríssima de John Lennon entrevistando ele mesmo! A matéria original foi publicada na antiga e finada revista POP, na época do lançamento do álbum Walls and Bridges. É interessante observar que, na época, Lennon ainda estava afastado de Yoko Ono, e não toca no nome dela uma vez sequer. Não tenho mais a revista! Tenho apenas as páginas da entrevista que colecionava (ainda até hoje!) em pastas com aquelas folhas de plástico. Espero que gostem e deixem seus comentários. Valeu! Abração! O Baú do Edu! Dos Beatles e da Cultura Pop!

JOHN LENNON ENTREVISTA JOHN LENNON
Jonh Lennon pegou a máquina de escrever, fumou um cigarrinho e começou este papo muito pirado, entrevistando ele mesmo...

- Ôi, John, faz tanto tempo que a gente não bate um papo...
- Não faz tanto tempo assim...
- Ok. Me diga uma coisa: você não deveria estar gravando um álbum com Phil Spector? Dos velhos rocks?
- Devia. Começamos em 73, mas nunca terminamos.
- E, de repente você estava trabalhando com o grande artista de rádio Harry Nilsson.
- Acertou! Eu fiz seu álbum Pussy Cats, que já foi lançado, depois continuei a compor o meu razoavelmente maravilhoso “Walls And Bridges”, que também já foi lançado, e que inclui a música que está fazendo grande sucesso... Whatever Gets You Trhu the Night. Nesta canção, no piano e como vocalista, está “minha amiga íntima e noiva” Elton John.
- Você acha que seu novo álbum, Walls and Bridges, representa um passo á frente na sua realização artística?
- Me sinto muito feliz com o álbum.
- E sobre aquelas histórias incríveis que circularam sobre você e Nilsson?
- Ficção em grande parte e álcool em dosagem mínima...
- É verdade que você perseguiu uma garçonete no Teatro Rainbow?
- Não deu para pôr a mão em ninguém porque, na verdade, eu tive que ser carregado...
- Todo mundo diz que Walls And Bridges é seu melhor disco desde Imagine. Você acha?
- Eu, pessoalmente, prefiro o “Plastic Ono Band” e depois o “Imagine”. De qualquer jeito, eu acho que tudo o que você faz ou é melhor ou pior do que qualquer outra coisa... “Este peixe está tão bom quanto o que comemos em St. Tropez, mas não chega aos pés daquele...”
- Agora que você já está morando há aproximadamente três anos em Nova York...
- Se você prestar atenção à capa de Walls asd Bridges, você verá uma pequena nota que diz: “Eu vi um Objeto Voador Não Identificado”. Por que você não me pergunta sobre isso?
- Ah, nem reparei. Você viu mesmo? Estava bêbado? Alto? Ligadão?
- Não. Não é nada disso. Naquela noite eu estava até muito sóbrio, deitado nu na cama, quando me deu essa vontade...
- Mas todos nós temos...
- Pois é. Eu fui para a janela, sonhando do jeito que eu costumo sonhar, e aí, ao virar a cabeça, pairando sobre o edifício ao lado, a não mais que trezentos metros, vi aquela coisa... Com lâmpadas comuns piscando, ascendendo e apagando em toda a volta da parte de baixo, e uma luz vermelha que não piscava, no alto... Que diabo seria isso? Será um helicóptero? Não! Não faz barulho... Ah, já sei! Deve ser um balão. Mas balões não são assim, nem voam tão baixo... Sim, pessoal, ele estava voando (muito devagar, acho que a cerca de 50 km por hora) baixo... Muito abaixo, repito, dos telhados mais altos (isto é, mais alto do que os edifícios velhos e mais baixo do que os novos). Ele ficou lá o tempo todo, não tirei os olhos dele, mas gritei para uma amiga que estava no quarto ao lado: “Venha ver isso!” Minha amiga veio correndo e testemunhou comigo. Ninguém mais estava por perto. Tentamos tirar algumas fotos (droga de câmera, estava encrencada) com uma câmera comum. Depois, demos o filme para revelar e ele nos devolveu um negativo sem nada impresso...
- Vocês não verificaram se mais alguém...
- Claro, claro. No dia seguinte minha amiga telefonou para os jornais, para a polícia, para saber se alguém mais tinha dado parte de alguma cisa. Dois outros grupos disseram que tinham visto algo... De qualquer forma, eu sei o que vi.
- Você não acha que ninguém vai acreditar, que vão chamar você de louco?
- Esta é uma das grandes cargas que pesam nas minhas costas.
- Eu tenho que manter a entrevista ainda por mais algumas páginas... Acho que tudo que tinha a ser perguntado, já foi perguntado durante os últimos anos... Será que você não gostaria de dizer mais alguma coisa que ainda não foi dita?
- Não acho.
- Quanta sabedoria! Você se encontra com os outros Beatles ou é uma ferida em que você não quer mexer?
- Eu amo meus pequenos Beatles... Vejo muito o Ringo, por que ele vem muito à América. Como você sabe, eu não posso sair daqui, senão fazem comigo o que fizeram com o Charlie Chaplin. E eu não quero um prêmio da Academia quando estiver com 60 anos, com discursos de como eu era maravilhoso, mas não tão maravilhoso, a ponto de me deixarem morar aqui agora... Paul, Ringo e eu passamos algumas tardes agradáveis em Los Angeles. Paul e Linda vieram me visitar há pouco tempo aqui em Nova Yokk e tivemos duas grandes noitadas de recordações. Ontém mesmo, ele e a divina Linda me mandaram um caloroso telegrama de felicitações pelo meu novo disco!
- Que engraçado! Percebi que você nunca menciona nada acerca de George... Existe alguma coisa errada entre vocês?
- Não, não existe nada de errado. Apenas que ele não vem há muito tempo para cá.

- É verdade que você e Ringo vão se apresentar juntos no próximo show dele?
- De jeito nenhum! Outro boato...
- E por que não? Podia ser bom...
- Ninguém me consultou. E ele talvez queira toda a grana para ele...
- Um comentário meio apimentado, John. As pessoas talvez interpretem mal...
- Não. É apenas uma realidade agradável. Só isso.
- Por que é que você está datilografando toda essa entrevista, como se alguém estivesse sentado aqui, com você, fazendo todas essas perguntas?
- Só para fazer diferente. Eu gosto de bater à máquina, aprendi datilografia ano passado. Mas meu pescoço está começando a doer. E está ficando um pouco chato...

E com isso, o Sr. Lennon me levou até a porta, que era branca. Estava de blue jeans e camisa cacharrel preta, usando botas enormes de cowboy. Eu só estava olhando. Com amor, John Lennon.

JOHN LENNON - SCARED