quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Nº 10

Ringo Starr e Barbara Bach casaram-se em 27 de abril de 1981. Cinco meses depois do acontecido no Dakota. Esta matéria saiu na revista Manchete em maio.

Só faltou John Lennon - O encontro dos BEATLES no casamento de RINGO

Ringo e Bárbara se conheceram durante as filmagens de O Homem da Caverna. Muitos escreveram que o romance era só publicidade. Não era...

Ao posar para a foto oficial, eles sorriam como quaisquer noivos tradicionais – embora se chamassem Ringo Starr, 40 anos, e Bárbara Bach, 34, tendo a seu redor centenas de fotógrafos, fãs ou curiosos. Segundo os boatos, Paul McCartney e George Harrison, ambos com 38 anos, compareceriam. E, quando os dois se materializaram na saída da igreja, o delírio foi inevitável. Depois, usando garrafas de champanha (devidamente esvaziadas) como bateria e com pequena ajuda de seus amigos, informa o TIME, montou uma improvisada sessão de jazz. A reunião ocorreu após a gravação de All Those Years Ago, um tributo musical a John Lennon composto por Harrison e que faz parte do seu próximo LP Somewhere in England. A faixa foi gravada com Harrison na guitarra, Starr na bateria, McCartney e a mulher Linda na harmonia. Foi a primeira canção em que os ex-Beatles colaboraram nos últimos dez anos. Depois de tudo, Paul deixou escapar o comentário: “É ótimo estarmos juntos novamente.” Os fãs dos 4 de Liverpool dizem amém. Lamentável, apenas, que John não estivesse lá compartilhar de tanta alegria.
Wilson Cunha

George saiu apressado, com sua nova mulher Olívia Arias.

Paul McCartney fez uma saída triunfal.

Nº 11

Os mistérios da vida comum de oito pessoas
Matéria publicada na revista Veja de 19 de março de 1969
. É impressionante observar como os erros podem se repetir durante anos. Para "eles" Lnda era herdeira da Kodak. Paul morreu em 66. Abração!

Não há nada de extraordinário no casamento de um “Beatle” --- a não se que a mulher, geralmente, se casa um pouco com mais três homens além do marido. “Eles são uma firma e resolvem tudo em conjunto: quando um quer casar, os outros podem permitir ou não”, comentou Jane Asher, namorada e noiva de Paul McCartney durante cinco anos, ao terminar o namoro cinco meses atrás.
Mas, na semana passada, diante de uma pequena multidão de fãs que o acolheu com gritos de amor e exclamações de tristeza, o último “beatle” solteiro, Paul McCartney, casou-se com a milionária americana Linda Eastman, de 27 anos, divorciada, mãe de uma menina de seis anos, Heather, e uma das herdeiras da firma Eastman-Kodak. Enquanto Paul casava, John Lennon estava trancado em casa com sua segunda e estranha mulher, Yoko Ono, Ringo Star ia a Liverpool visitar os parentes e George Harrison fumava maconha em casa com a mulher, Pattie, e acabavam os dois presos.
Os três companheiros de Paul vetavam o nome de Linda, como haviam feito com Jane? Entre esta e outras dúvidas, ela terá que aprender a fazer parte de uma família de oito pessoas muito parecidas entre si, mas na qual nem tudo é cor-de-rosa.

A vida a oito - As mulheres dos Beatles, nos últimos anos, foram invejadas, ameaçadas, vaiadas e finalmente agredidas (Pattie e Cynthia, a primeira mulher de John Lennon, desistiram de assistir às apresentações públicas dos maridos por causa da violência das fãs).
Jane e Cynthia viveram um drama parecido: foram as únicas que protestaram contra a predominância dos interesses do conjunto na vida conjugal --- e acabaram abandonadas. John Lennon foi o primeiro a casar, em 1962, e no ano passado, quando se divorciou, disse que só casara com Cynthia porque ela estava grávida. A biografia oficial dos Beatles reserva para Cynthia algumas insinuações de mesquinharia com dinheiro, projetos nunca postos em prática (Cynthia não fazia absolutamente nada), além de implicar com o barulho que John fazia ao comer. Jane Asher tinha dezessete anos quando conheceu Paul, em 1963, e sempre fez questão de ter seu próprio emprego de atriz. Não gostava de sair com todos os Beatles porque “eles ficavam conversando entre si e fazendo música, deixando as mulheres sem assunto”.

O geral e o particular - A vida conjugal dos Beatles foi muito parecida durante certo tempo. Os quatro moram em grandes casarões fora de Londres, visitam-se continuamente e suas mulheres têm origens e problemas semelhantes: John conhecia Cynthia antes de ser famoso, Jane fora colega de escola de Paul, Ringo namorava Maureen Cox desde Liverpool, cidade natal de ambos, e George saía com Pattie de 1960, antes de aparecer o conjunto. Numa família assim os problemas também eram muito parecidos: enquanto Pattie passava horas “imaginando a melhor arrumação dos móveis”, Maureen especializava-se em preparar pratos para Ringo (ele não admite que a mulher e os dois filhos comam antes dele e tem uma cadeira que só o dono da casa usa). Esta harmonia a oito sofreu seus primeiros golpes no ano passado, quando John conheceu Yoko Ono (“Ela é uma mente superior, fantástica”) e Paul brigou com Jane, começando a sair com Linda.

Yoko, de 34 anos, pintora, escultora, escritora e cineasta (é dela o célebre curta-metragem “Number 4”, que mostra 365 nádegas diferentes e foi elogiado pela crítica inglesa) é agora a personalidade mais forte no grupo feminino dos Beatles e tem sobre John uma influência que nenhuma das outras mulheres conseguiu exercer. Linda, mulher elegante e sofisticada, fotógrafa profissional, jamais deu qualquer opinião sobre os Beatles e sobre o tipo de vida que eles levam. Ela pode ter calculado que o tempo trabalha a favor de sua vida conjugal: desde que John e Yoko começaram a se afastar dos outros “beatles”, George já sugeriu várias vezes que cada um deve tentar a sorte sozinho e o próprio Paul preferia ultimamente passear com sua cadela Martha a viajar com o grupo.

Nº 12

Matéria publicada na revista Veja de 21 de agosto de 1985.

DISCOS - TACADA POP
Michael Jackson compra canções dos Beatles

O cantor Michael Jackson, uma das mais cintilantes estrelas da música pop americana, derrubou de um golpe o ex-beatle Paul McCartney e Yoko Ono, viúva de John Lennon. Na semana passada, Jackson venceu uma concorrência da qual participaram Paul e Yoko e comprou por 45 milhões de dólares a editora musical inglesa ATV Music, ligada à celebre Northern Songs, dona dos direitos de reprodução e execução do melhor bocado da produção dos Beatles. Como proprietário da editora, Michael Jackson passa a ter os direitos sobre 270 canções compostas pela dupla Lennon e McCartney de 1963 a 1970, ano em que o mais popular e inovador conjunto de rock do mundo foi dissolvido. Assim, cada vez que clássicos com Hey Jude, Michelle, Yesterday e Let It Be forem gravados, tocados em público ou executados em rádios, Michael Jackson receberá polpudas comissões - uma mina de ouro que Paul McCartney e Yoko Ono vinham tentando recuperar.
Aos vinte e seis anos de idade, Michael Jackson, o ex-menino prodígio da música negra, converte-se num misto de artista e homem de negócios. Cacife para bancar sua nova carreira é o que não lhe falta. Apenas seu útimo disco, o premiadíssimo Thriller, do qual foram vendidas 35 milhões de cópias, lhe rendeu 50 milhões de dólares - 5 milhões a mais, do que desembolsou para a compra da editora musical. O investimento aumentará consideralvelmente seu cacife. Especialistas do mercado de discos calculam que os direitos sobre as músicas dos Beatles renderão a Jackson 7 milhões de dólares por ano. Quanto a sua própria produção, Jackson já tomou os devidos cuidados. As reproduções dos seus discos são controladas por uma editora de sua propriedade - a Mijack Music. Destinam-se aos cofres da Mijack os royalties pelas gravações, versões e execuções das músicas de MJ. O cantor passa a ser agora provavelmente o maior publisher de música do mundo. No Brasil, a gravadora dos Beatles é a Odeon, que criou um braço editorial para representar a Northern Songs no contole da reproduções das obres do conjunto - da inclusão das músicas em novas gravações ao uso das canções em trilhas sonoras de novelas ou filmes. Foi a Odeon que, recentemente, aprovou a entrada no último disco de Roberto Carlos de uma versão da música And I Love Her, um velho sucesso dos Beatles. Apenas por conta desta gravação, a Odeon já remeteu 140 milhões de cruzeiros à detentora dos direitos dos Beatles. Cifras como esta passarão, daqui por diante, a engordar o patrimônio de Michael Jackson.

Nº 13

Forever. E sem chiados.
Os primeiros discos dos Beatles a laser estão chegando

Matéria publicada na revista "Afinal" de 10 fevereiro de 1987

Please Please Me, With the Beatles, A Hard Day's Night, Beatles for Sale: os quatro primeiros álbuns Beatles a laser.

Dezessete anos depois da dissolução do conjunto, os Beatles chegam à era do laser. No próprio dia 26 começam a ser distribuídos às lojas americanas os primeiros discos compact discs – o disco digital de reprodução através de raio laser – do grupo, e já quem se tenha decidido a chamar a polícia, para evitar tumulto. Em um prazo de pouquíssimos dias, já haverá cds dos Beatles à venda nas grandes importadoras de São Paulo e Rio de Janeiro.
A EMI Music WorldWide, a gravadora dos Beatles, promete lançar, até o final do ano, todo os antigos LPs do conjunto na forma de cd. Os brasileiros felizardos que têm toca-discos a laser, e podem pagar 700 cruzados por CD (como o compact disc é conhecido em todo o mundo), não terão grandes surpresas – a não ser, é claro a felicidade de ouvir para sempre sem qualquer chiado, o som do conjunto de múisca mais famoso da História.
Os consumidores americanos, no entanto, vão encontrar nas lojas discos de que jamais ouviram falar. É que a gravadora decidiu lançar os discos a laser dos Beatles seguindo rigorosamente a discografia oficial do conjunto de acordo com os lançamentos originais ingleses. E nos Estados Unidos, os lançamentos, até 1966, foram inteiramente diferentes daqueles do país de origem de John, Paul, Ringo, George. Fazia-se uma imensa salada. Entre 1962 e 1966, os Beatles gravaram 102 músicas, que na Inglaterra apareceram em oito LPs, 12 compactos duplos e 13 simples; nos Estados Unidos, essas 102 músicas viraram 11 LPs, quatro compactos duplos e 20 simples. Só depois de Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band, de 1967, os LPs do conjunto passaram a ser exatamente iguais em todo o mundo. No Brasil, a EMI-Odeon passou, em meados da década de 70, a relançar os LPs seguindo a forma original inglesa.
Os discos serão lançados em ordem cronológica. No dia 26 chegam às lojas os CDs dos quatro primeiros álbuns – Please Please Me e With The Beatles (1963), A Hard Day’s Night e Beatles fo Sale (1964). Até o final do ano, deverá ter saído da fábrica aberta há pouco pela EMI em Jacksonville, Illinois, a discografia completa, de 13 álbuns.
“No mais tardar no dia 1º de março, já teremos os compacts discs dos Beatles em nossas lojas”, garante orgulhoso, Odair Borges, da rede paulistana Museu do Disco. “Já encomendamos 1.000 cópias de cada”. E revela que seu distribuidor em Miami, decidiu chamar à polícia no dia em que receber a primeira remessa. “Vai ser uma loucura”.

Nº 14

Recordar é viver! Essa, foi simplesmente sensacional! Foi publicada na "Ilustrada" da Folha de São Paulo no dia 6 de novembro de 1985, uma quarta-feira. Lembro como se tivesse sido ontém. Deu um bafafá danado! Os fofoqueiros de plantão, na época, disseram até que dias depois das "declarações" de McCartney, ele e Julian Lennon estavam numa mesma festa e que Julian tentou agredi-lo. Foi impedido pelos seguranças, claro. Espero que gostem! Abração!

Paul chama Jonh de “porco manipulador”
Das Agências Internacionais

O ex-beatle Paul McCartney, 43, declarou, em Londres, à revista feminina “Woman”, que seu ex-companheiro de conjunto e parceiro na grande maioria das canções dos Beatles, John Lennon, assassinado, aos 40 anos, no dia 8 de dezembro de 1980 por um fanático, era “um porco manipulador”. Segundo McCartney, Lennon “não foi nenhuma espécie de santo, ele era na verdade um depreciador”.
McCartney disse também que o ex-amigo se havia tornado ciumento e o aconselhara certa vez a não dar em cima de sua mulher, Yoko Ono, 52. Esta, ao inteirar-se, em Nova York, do teor da entrevista, declarou-se “atordoada” e acrescentou que reservaria seus comentários para quando tivesse lido o artigo.
Luther Lennon
”Era um porco manipulador, o quee ninguém jamais imaginou. Agora, depois de morto, tornou-se Martin Luther Lennon”, disse McCartney, aludindo ao líder negro norte-americano Martin Luther King, assassinado em 1968 por um racista. “John sempre foi apresentado como o bom moço dos Beatles, e eu como o bastardo que destruiu o conjunto. As coisas não se passaram assim. Ninguém nunca se deu conta do hipócrita que foi Lennon. Fiquei sabendo que ele declarou ter participado da composição da música “Eleanor Rigby” (um dos seus sucessos do grupo). Sim, em mais ou menos meio verso”, disse o ex-beatle na entrevista.
Paul McCartney sempre negou ter sido o responsável pela separação do conjunto em 1970. Quanto às declarações que deu ontem a revista "Woman", ele mesmo as justificou na entrevista, alegando que não podia esconder a raiva que sentia por tudo que Lennon disse sobre ele.
"Muzak"
"Ninguém se lembra de quanto John me magoou ao dizer que minha música era "muzak" (música ambiental de elevadores, escritórios e lugares públicos), disse McCartney, referindo-se à música que John Lennon lhe dedicou em seu LP solo "Imagine", "How do You Sleep at Night?". Ali ele afirma que o som de McCartney é "muzak" para os seus ouvidos, além de dizer que a única coisa que o ex-parceiro fez foi "yesterday" (brincadeira com o duplo sentido da palavra, que em inglês quer dizer ontem e que é também o título de outro sucesso do grupo).
John Winston Lennon e James Paul McCartney conheceram-se em Liverpool no dia 15 de janeiro de 1956 e o primeiro, então com 15 anos, convidou o outro, com 13, a tocar em seu conjunto, o Quarry Men. O guitarrista George Harrinson e um baterista, Pete Best, se juntarão a eles dois anos depois. O conjunto mudará o nome para Moondogs e, em seguida, Silver Beatles. Em 1962, sai o Pete Best e entra Ringo Starr (pseudônimo de Richard Starkey). Já com o nome de Beatles gravam neste mesmo ano seu primeiro compacto simples. Eles tornaram-se o grupo de rock mais famoso de todos os tempos, com composições como "Michelle", "Help", "Yesterday" e outras, e a dissolução do grupo até hoje não foi claramente explicada. Depois da separação, John continuou sua carreira com a mulher Yoko Ono; e Paul com a mulher Linda Eastman, formou a banda Wings, que o acompanha em seus discos.

A perfeição conflitiva
André Singer
Analista político da Folha

Paul McCartney resolveu falar. Depois de anos de silêncio, o beatle bem comportado decidiu expor as mágoas acumuladas ao longo de duas décadas de competição com o amigo e parceiro John Lennon. Provavelmente McCartney está certo quando menciona a paranóia, as tentativas de ofuscamento e irascibilidade de Lennon. Lennon se considerava o líder dos Beatles. Em geral, grupos têm líderes. Único problema: McCartney também se sentia predestinado à liderança e ao brilho normalmente reservado a apenas uma figura de cada grupo de rock.
Foi o encontro conflitivo de Lennon e McCartney que produziu uma obra artística forte e duradoura, apesar de pop e consumível, e em parte por isso mesmo. Todas as caractrerísticas de Lennon pertencem também a McCartney: egocentrismo, competitividade acentuada, autoritarismo, impaciência com os companheiros de trabalho etc. Mas nada disso teria maior significado se os dois não fossem possuidores de sensibilidades e talentos complementares.
Lennon agressivo, desmistificador, irônico e amargo. McCartney romântico, lírico, doce superficial. Sozinhos fizeram essas coisas boas. Juntos, excepcionais! A maioria das composições foi individual, mas o arranjo, a execução, a soma final dos estilos nas faixas intercaladas dos discos, os pequenos e grandes toques sugeridos em cada canção fizeram os Beatles.
Os Beatles trafegaram por todas as águas e sua força foi fazer a paródia de todos os estilos. Para isso, Lennon e McCartney precisavam ser o par de oposições que foram. Conflitos e mágoas foram o produto guardado até agora nos bastidores por McCartney, mas já tinham sido expostos por Lennon em diversas entrevistas e canções. São importantes para a história deles. Para nós, “gossip”.

O pólo masculino e feminino
Martinas Suzuki Jr.
Editor da Ilustrada

Assim como na tragédia grega Apolo e Dionísio eram princípios que se opunham mas que se completavam, e só nesta tensão realizava à integra da Arte, os garotos John e Paul formaram o arco teso de arquétipos longamente sedimentados na imagem da criação artística. John Lennon: o dono do verbo, o guerreiro, o herói, portanto princípio masculino: Paul McCartney: a música, o timbre agudo, a formalidade delicada, portanto o princípio feminino.
Ulisses e Sereia, ânimo e anima: o destino trágico de John foi o corolário da condição mítica do homem épico; o destino de burguês bem-sucedido de Paul é harmônico com a ociosidade do mundo que vive em função das musas. John reclamava de seu parceiro, na perspectiva máscula do discurso da transformação; Paul, agora solta o verbo feminino como uma comadre ressentida. O casal rompeu-se para sempre e nós, que já vivemos uma década mais inocente do rock “n” roll, ficamos sem entender direito a estranha separação destes amantes que, pensávamos, eram os aliciadores das paixões, os que nos ensinaram o fragmento amoroso de pegar na mão e a coragem de dizer sim, sim, sim.

Nº 15

Excelente artigo publicado na revista "Afinal" de 15 de março de 1988

É só rock “n” roll – e que maravilha!
Sérgio Vaz

Nesta era de fibra de vidro, continuo procurando por uma pérola, escreveu Bob Dylan em Dirge, de 1974. Seu amigo George Harrison poderia perfeitamente assinar embaixo a mesma declaração de princípios. Seu novo LP, Cloud Nine, que a WEA lançou no final de fevereiro no mercado brasileiro, é um disco extraordinário por diversos motivos – mas, principalmente, porque ele dispensou os aparatos modernosos, virou as costas para tudo que se inventou de tecnopop, despojou-se até (ainda bem) do seu fanatismo místico, e foi direto ao centro da questão, o princípio elementar, a pérola: o velho e bom rock”n”roll. Com direito, é claro, a uma ou outra balada. Tudo limpo, límpido, transparente, feito com competência, garra, paixão, alguma angústia, alguns piques de alegria, maturidade. Nada de massa sonora. Não há massas sonoras – essa praga dos anos 70 que em muitos casos insiste em sobreviver até este final de anos 80 - , nem efeitos de alquimias eletrônicas. “No meu tempo”, disse ele, “usávamos guitarras reais, teclados reais, baterias reais e pessoas reais.”
Deu certo – e não deu certo apenas porque George conseguiu, com este Cloud Nine, criar o melhor trabalho de seus 17 anos pós-Beatles, ao lado de All Things Must Pass, o primeiro, o álbum triplo de 1970. Deu certo também porque, como nunca tinha acontecido nestes anos todos, fez um tremendo sucesso. Em meados de um mês o LP – lançado na Inglaterra e nos EUA em outubro do ano passado – vendeu um milão de cópias e deu a ele seu primeiro disco de platina. (Depois da separação dos Beatles, apenas Paul McCartney tinha conseguido isso.) O que prova que, afinal de contas, havia muito mais gente do que se suspeitava interessada em pérolas e não em fibra de vidro.
É interessante que George tenha conseguido tudo isso – um trabalho belíssimo, marcante, a unanimidade da crítica americana e européia, a consagração popular – quando já ninguém falava dele, depois de cinco anos de absoluto silêncio (Gone Troppo, seu LP anterior, foi malhadíssimo, não vendeu nada e não tocou no rádio; “pra que fazer música se não vai tocar?”, ele se perguntou, durante esse intervalo de cinco anos). Parece mais uma peça que se ajusta perfeitamente nesse quadro estranho que é sua carreira. Durante oito anos como Beatle (e cada dia da época em que ele era um Beatle equivalia a dez anos, como ele diz agora), ele foi massacrado pelo poder e pelo talento transbordante da dupla central; para cada 13 composições de Lennon & McCartney, ele conseguia gravar uma sua. No álbum Branco, de 1968, por exemplo, conseguiu o feito inédito de gravar quatro músicas de sua autoria – só que contra 26 de Lennon & McCartney. Talvez por isso, pelo fato de ter tido criatividade represada, ele tenha partido, ainda em 1970, o ano da dissolução do conjunto, para o exagero do álbum triplo – lançando poucos meses depois, em 1971, outro álbum triplo, The Concert for Bangladesh, ainda que dividindo a cena com amigos como Bob Dylan. Depois desse começo copioso e competente, no entanto, o compsitor entrou meio em recesso, lançando apenas duas ou três boas canções em cada um dos LPs que se seguiram, até Gone Troppo, 0 11º da carreira solo. Eram, na maioria, trabalhos pouco criativos, sem brilho, e encharcados de misticismo.
Os cinco anos de silêncio – longe do carrossel, como diria John Lennon – fizeram um tremendo bem a George Harrison. (Coincidente ou emblematicamente, John Lennon também teve exatos cinco anos de silêncio entre Rock”n”Roll e seu retorno no esplendor da maturidade em Double Fantasy, de 1980.) Depois de cuidar de plantas em sua mansão e andar perdendo dinheiro produzindo filmes, George resolveu reunir alguns velhos amigos no estúdio que tem em sua casa: Ringo Starr na bateria, Eric Clapton na guitarra (“nós nos entendemos bem, até dividimos a mesma mulher”), Elton John no piano, Gary Wright (ex-Spooky Tooth) nos teclados e Jeff Lynne (ex-ELO) na guitarra, baixo, produção e co-autoria de várias músicas. O resultado foi um dos grandes discos da história do rock. Bob Dylan – citado no verso “it’s all over now, baby blue”, na deliciosa When We Was Fab – seguramente concorda. John Lennon – homenageado na mesma música com citações de seu I Am the Walrus – seguramente concordaria.

GEORGE HARRISON - THIS IS LOVE

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Nº 16

Postagem publicada originalmente rm 16 de janeiro de 2010Caríssimos amigos: Essa é do fundo do baú! Com absoluta exclusividade, nosso blog preferido publica agora uma entrevista raríssima de John Lennon entrevistando ele mesmo! A matéria original foi publicada na antiga e finada revista POP, na época do lançamento do álbum Walls and Bridges. É interessante observar que, na época, Lennon ainda estava afastado de Yoko Ono, e não toca no nome dela uma vez sequer. Não tenho mais a revista! Tenho apenas as páginas da entrevista que colecionava (ainda até hoje!) em pastas com aquelas folhas de plástico. Espero que gostem e deixem seus comentários. Valeu! Abração! O Baú do Edu! Dos Beatles e da Cultura Pop!

JOHN LENNON ENTREVISTA JOHN LENNON
Jonh Lennon pegou a máquina de escrever, fumou um cigarrinho e começou este papo muito pirado, entrevistando ele mesmo...

- Ôi, John, faz tanto tempo que a gente não bate um papo...
- Não faz tanto tempo assim...
- Ok. Me diga uma coisa: você não deveria estar gravando um álbum com Phil Spector? Dos velhos rocks?
- Devia. Começamos em 73, mas nunca terminamos.
- E, de repente você estava trabalhando com o grande artista de rádio Harry Nilsson.
- Acertou! Eu fiz seu álbum Pussy Cats, que já foi lançado, depois continuei a compor o meu razoavelmente maravilhoso “Walls And Bridges”, que também já foi lançado, e que inclui a música que está fazendo grande sucesso... Whatever Gets You Trhu the Night. Nesta canção, no piano e como vocalista, está “minha amiga íntima e noiva” Elton John.
- Você acha que seu novo álbum, Walls and Bridges, representa um passo á frente na sua realização artística?
- Me sinto muito feliz com o álbum.
- E sobre aquelas histórias incríveis que circularam sobre você e Nilsson?
- Ficção em grande parte e álcool em dosagem mínima...
- É verdade que você perseguiu uma garçonete no Teatro Rainbow?
- Não deu para pôr a mão em ninguém porque, na verdade, eu tive que ser carregado...
- Todo mundo diz que Walls And Bridges é seu melhor disco desde Imagine. Você acha?
- Eu, pessoalmente, prefiro o “Plastic Ono Band” e depois o “Imagine”. De qualquer jeito, eu acho que tudo o que você faz ou é melhor ou pior do que qualquer outra coisa... “Este peixe está tão bom quanto o que comemos em St. Tropez, mas não chega aos pés daquele...”
- Agora que você já está morando há aproximadamente três anos em Nova York...
- Se você prestar atenção à capa de Walls asd Bridges, você verá uma pequena nota que diz: “Eu vi um Objeto Voador Não Identificado”. Por que você não me pergunta sobre isso?
- Ah, nem reparei. Você viu mesmo? Estava bêbado? Alto? Ligadão?
- Não. Não é nada disso. Naquela noite eu estava até muito sóbrio, deitado nu na cama, quando me deu essa vontade...
- Mas todos nós temos...
- Pois é. Eu fui para a janela, sonhando do jeito que eu costumo sonhar, e aí, ao virar a cabeça, pairando sobre o edifício ao lado, a não mais que trezentos metros, vi aquela coisa... Com lâmpadas comuns piscando, ascendendo e apagando em toda a volta da parte de baixo, e uma luz vermelha que não piscava, no alto... Que diabo seria isso? Será um helicóptero? Não! Não faz barulho... Ah, já sei! Deve ser um balão. Mas balões não são assim, nem voam tão baixo... Sim, pessoal, ele estava voando (muito devagar, acho que a cerca de 50 km por hora) baixo... Muito abaixo, repito, dos telhados mais altos (isto é, mais alto do que os edifícios velhos e mais baixo do que os novos). Ele ficou lá o tempo todo, não tirei os olhos dele, mas gritei para uma amiga que estava no quarto ao lado: “Venha ver isso!” Minha amiga veio correndo e testemunhou comigo. Ninguém mais estava por perto. Tentamos tirar algumas fotos (droga de câmera, estava encrencada) com uma câmera comum. Depois, demos o filme para revelar e ele nos devolveu um negativo sem nada impresso...
- Vocês não verificaram se mais alguém...
- Claro, claro. No dia seguinte minha amiga telefonou para os jornais, para a polícia, para saber se alguém mais tinha dado parte de alguma cisa. Dois outros grupos disseram que tinham visto algo... De qualquer forma, eu sei o que vi.
- Você não acha que ninguém vai acreditar, que vão chamar você de louco?
- Esta é uma das grandes cargas que pesam nas minhas costas.
- Eu tenho que manter a entrevista ainda por mais algumas páginas... Acho que tudo que tinha a ser perguntado, já foi perguntado durante os últimos anos... Será que você não gostaria de dizer mais alguma coisa que ainda não foi dita?
- Não acho.
- Quanta sabedoria! Você se encontra com os outros Beatles ou é uma ferida em que você não quer mexer?
- Eu amo meus pequenos Beatles... Vejo muito o Ringo, por que ele vem muito à América. Como você sabe, eu não posso sair daqui, senão fazem comigo o que fizeram com o Charlie Chaplin. E eu não quero um prêmio da Academia quando estiver com 60 anos, com discursos de como eu era maravilhoso, mas não tão maravilhoso, a ponto de me deixarem morar aqui agora... Paul, Ringo e eu passamos algumas tardes agradáveis em Los Angeles. Paul e Linda vieram me visitar há pouco tempo aqui em Nova Yokk e tivemos duas grandes noitadas de recordações. Ontém mesmo, ele e a divina Linda me mandaram um caloroso telegrama de felicitações pelo meu novo disco!
- Que engraçado! Percebi que você nunca menciona nada acerca de George... Existe alguma coisa errada entre vocês?
- Não, não existe nada de errado. Apenas que ele não vem há muito tempo para cá.

- É verdade que você e Ringo vão se apresentar juntos no próximo show dele?
- De jeito nenhum! Outro boato...
- E por que não? Podia ser bom...
- Ninguém me consultou. E ele talvez queira toda a grana para ele...
- Um comentário meio apimentado, John. As pessoas talvez interpretem mal...
- Não. É apenas uma realidade agradável. Só isso.
- Por que é que você está datilografando toda essa entrevista, como se alguém estivesse sentado aqui, com você, fazendo todas essas perguntas?
- Só para fazer diferente. Eu gosto de bater à máquina, aprendi datilografia ano passado. Mas meu pescoço está começando a doer. E está ficando um pouco chato...

E com isso, o Sr. Lennon me levou até a porta, que era branca. Estava de blue jeans e camisa cacharrel preta, usando botas enormes de cowboy. Eu só estava olhando. Com amor, John Lennon.

JOHN LENNON - SCARED